Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

"Portugal é uma anedota"

 

 

O "Sarilhos e Cadilhos" é um grupo de comédia que actua em espaços nocturnos com o objectivo de mostrar ao público o que é o teatro, desmistificando algumas ideias erradas.
O entrevistado é Júlio Oliveira, o único actor profissional do projecto, que serviu de porta voz do grupo.

Quando começou a aventura dos "Sarilhos e Cadilhos"?
Os "Sarilhos e Cadilhos" estrearam em Fevereiro de 2002, portanto é um projecto que já conta com cinco anos, a caminho de seis.

O grupo está a passar por uma fase de mudança de actores. Porque é que isso acontece?
Inicialmente, a ideia era de que este fosse um grupo fixo, coeso e de longa duração. Mas, apesarmos de querermos um grupo de longa duração, nunca pensamos chegar aos cinco anos. No entanto, as coisas têm evoluído de tal maneira, surgem novos desafios às pessoas, e óbviamente não se conseguem ou não querem manter-se no grupo.Para além disso, para um actor, estar cinco anos a fazer sempre a mesma personagem acaba por ser frustrante porque passa a conviver quase diariamente com essa personagem e chega a um ponto em que não há uma evolução. Por isso é normal que as pessoas queiram partir para outros horizontes, daí estarmos a renovar, agora, o elenco para mais uma temporada que se avizinha e não sabemos por mais quanto tempo.

Mas é a primeira remodelação que o grupo está a sofrer?
Não, já é a terceira remodelação.Isto quase que funciona um pouco como os "Morangos com Açúcar", durante algum tempo há uma temporada e uma nova reviravolta nas personagens. Embora a família em questão o pilar se mantenha, que é a estrutura familiar do pai, do filho e, depois, da empregada, as personagens acabam por ter alguma nuance e alguma mudança. Mas a característica principal, que é a família típicamente portuense está sempre presente.

Como surgiu a ideia de formar um grupo com estas características?
Em 2002 estava a terminar o meu curso em teatro, e, normalmente, quando acabamos um curso, das duas uma: ou optámos por nos atirar para o mercado de trabalho ou optámos por nos acomodar aquilo que nos aparecer. Na altura eu já tinha em mente um projecto que seria algo do género do que é actualmente os"Sarilhos e Cadilhos". Na altura o "Sai de Baixo" era um programa que estava a ser muito divulgado e bastante visto cá em Portugal e a minha ideia era fazer uma fusão entre teatro e bares. Isto, para chegarmos a um público misto, porque a maioria do público não está habituado a ir ao teatro ou a ver espectáculos de teatro. Para isso baseei-me num espectáculo que assisti em Nova Iorque que era feito em bares e em discotecas. Mas o trabalho feito num bar tinha de ser para agradar a gregos e troianos, o que é difícil. A comédia é uma mais valia porque toda a gente gosta de se rir. Lembrei-me de criar uma família típicamente portuguesa onde toda a gente acabaria por se identificar e por se rever no quotidiano, daí a criação da família Sousa, num formato "Sai de Baixo". Isto é, um espectáculo que seria feito por episódios, mantendo sempre a mesma estrutura familiar, mas mudando sempre as histórias. Daí surgiu o "Sarilhos e Cadilhos"
onde toda a gente acaba por identificar com o "Sai de Baixo" porque são muito idênticos. Estamos a falar de uma família típicamente portuguesa, onde toda a acção se passa na sala de estar da casa da família Sousa, é um espectáculo que é feito por episódios. Mas que nos rotulou como "Sai de Baixo à Portuguesa" acabou por ser a imprensa. Nós nunca escondemos essa inspiração mas nunca nos quisemos, nem de perto nem de longe, comparar a um espectáculo brasileiro que, na minha opinião, é fantástico.

Porque escolheram o nome "Sarilhos e Cadilhos"?
A escolha do nome foi um processo muito rápido porque tivemos que escolher de um momento para o outro. O grupo, na altura, estava em dúvida sobre o que havíamos de escolher, teria de ser um grupo sonante porque estávamos a começar um projecto novo e não podíamos arriscar um nome que não tivesse algum impacto. Na altura só se falava em sarilhos porque era o que o projecto já estava a ser(risos) e depois pensamos no que é que rimava com sarilhos. Entretanto lembramo-nos do trocadilho "quem tem filhos tem cadilhos" e acabou por ficar "Sarilhos e Cadilhos". Sarilhos e cadilhos acaba por ser confusões e o primeiro tem um impacto maior nas pessoas e, também, é melhor para razões comerciais.

Para além do "Sai de Baixo", em que outros trabalhos se basearam?
O "Sai de Baixo" para as pessoas é a inspiração a que comparam mais porque, realmente, era muito visto em Portugal. Mas uma grande inspiração para o projecto foi o espectáculo a que assisti em Nova Iorque porque se enquadra no tipo de ambiente em que fazemos os espectáculos, que é em bares e discotecas.

Os vossos episódios envolvem algum tipo de crítica?
(risos) Os nossos episódios são muito actuais e por isso têm, obrigatóriamente, que falar na actualidade. Portugal é um excelente mote para qualque tema, pois por si já é uma anedota, portanto não é preciso haver um terramoto cá para haver tema de assunto em que se falar. Qualquer coisinha é motivo de risota. Crítica directamente não terá porque não achamos ser as pessoas mais indicadas para criticar seja o que for, quanto muito, podemos não concordar com algumas coisas. Óbviamente brincamos com algumas situações, mas brincamos de uma maneira muito subtil, não caindo no grande problema que é, hoje em dia, a comédia, ou seja, caír no ridículo ferindo susceptibilidades. Hoje em dia isso é o prato do dia, qualquer pessoa faz chacota com temas de assunto que às
vezes merecem o maior respeito de toda a gente. Por exemplo, o caso do "Apito Dourado". É um caso que, aparentemente, não fere susceptibilidades mas acaba por ferir. Nós não podemos esquecer a família do Pinto da Costa, pois o Pinto da Costa não se resume a Pinto da Costa, resume-se, por exemplo, aos filhos do Pinto da Costa que andam em escolas. Portanto, tudo isto move um senão. A comédia é um bocado como andarmos no fio da navalha, onde temos que ter sempre um grande equilíbrio senão caímos para o ridículo ou caímos para o descrédito. Nós tentamos andar sempre no fio da navalha, nem sempre conseguimos, às vezes descambámos um bocado, mas tentámos, ao máximo, nao ferir susceptibilidades. Criticar não criticamos, simplesmente brincamos com algumas situações e as pessoas acabam por identificar do que se trata, pois para meio entendedor, meia palavra basta.

Sentem que o vosso trabalho é reconhecido?
É. Essa é uma excelente pergunta porque há muita gente que não sabe distinguir conhecimento de recohecimento. Hoje em dia não falta gente a querer entrar para o mundo do espectáculo porque adoram ser conhecidas, e normalmente um actor não quer ser conhecido, quer ser reconhecido. Sem dúvida alguma que é uma grande vitória um projecto destes, que já tem seis anos, embora a maior parte de Portugal, ainda, só tenha ouvido falar, ainda não tenham visto. Mas é muito bom sermos reconhecidos pelo trabalho que temos vindo a desenvolver e temos a noção que, talvez, não sejamos mais conhecidos porque não o quisémos. Talvez, se tivéssemos encaminhados pelas opções que nos puseram iriamos cair no tal descrédito que não queremos cair. Exemplo vivo disso é o "Gato Fedorento", começou por ser muito bom e neste momento, eu acho que está a cair num descrédito muito grande. Estão num canal de televisão onde há membros do Estado, por
isso não podem fazer tudo o que querem, estão sempre a ser acompanhados portanto tudo o que escrevem é visto e revisto para ver se pode ser aprovado, mas, secalhar isso só aconteceu porque acharam que chegaram a um patamar onde já podiam dizer tudo e mais alguma coisa, portanto talvez seja bom haver esse controlo. Outro exemplo, o Herman José. Eu acho que o Herman José foi uma grande mudança, sair da RTP e passar para a SIC foi como mudar da noite para o dia. Num canal onde ele tinha quase liberdade para dizer tudo foi para um canal em que lhe disseram para dizer toda a porcaria que lhe apetecesse. Mas o
povo português é disso que gosta, prova disso era as audiências que ele tinha quando apresentava o "Herman SIC". Agora tem o programa "Hora H" dá no que dá porque secalhar está a ser um pouco mais controlado. Agora, em relação a nós, é muito bom chegar ao fim de cinco anos e haver gente que nos contrata, que quer o nosso trabalho e muitas vezes mais que uma vês. As pessoas que nos vêem gostam, é muito bom no final de uma actuação baterem-nos palmas. Também é muito bom vermos casas que, ainda, enchem completamente para verem um projecto que não é tão conhecido mas é reconhecido pelo trabalho que faz. É muito bom ser reconhecido.

Há algum momento que possas definir como "momento chave" do grupo?
Momentos chave já houve. Acho que em todos os projectos há o momento auge e depois há o momento que temos de aguentá-lo. O momento auge foi o momento da novidade dos "Sarilhos e Cadilhos", em 2002 quando arrancámos. Os três primeiros meses foram momentos muito bons para nós porque era novidade, estávamos numa fase de crescimento muito boa, era um projecto que estava a vingar, que estava a ter retorno e que estava a ter um "feedback", do público, muito grande. Se calhar pelo facto de estarmos fixos num local estava a ser muito bom. O facto de andarmos a correr Portugal, como nesta fase, é muito bom porque vamos a locais que nunca fomos, levamos a cultura a locais que não têm tanto acesso como as grandes cidades, mas há um senão, que é a dispersão que acaba por haver. Assim, as pessoas do Grande Porto, que foi onde o projecto foi desenvolvido, acham que ele já não existe. Agora, acho que o projecto começou a tomar proporções que tivémos que analisar muito bem quais os caminhos que deviamos seguir. É um bocado como tudo, quando chegamos a um ponto em que o retorno do público, que é quem assiste e nos dá o reconhecimento, é muito grande, temos de pensar muito bem o que é melhor e o que não é melhor, porque não há artista sem público nem há público sem artista. As coisas não funcionam uma sem a outra, portanto temos que ter muito cuidado nas decisões que tomamos. Com a nova temporada que estamos a preparar, acredito que o novo momento auge, ainda esteja para vir. Vamos voltar-nos a concentrar num só local, voltar a habituar o
público portuense que vamos estar sempre no local "x" e durante uma temporada voltaremos a ter uma visibilidade que não temos tido ultimamente. A visibilidade só me preocupa no aspecto em que é o público que nos dá. Como o português tem memória curta é preciso reavivar-lhe que ainda existimos.

 

Não têm receio que um dia o público deixe de achar piada às vossas produções?
Claro que assusta. A pior coisa que pode acontecer a um artista é subir ao palco e não ter ninguém para assistir (risos). Mas, além disso, em comédia é muito mau haver uma plateia que não se ri ou, supostamente, é uma comédia e ninguém achou piada. O "Sarilhos e Cadilhos" tem uma mais valia que é o facto de se apresentar por episódios semanais e mais dificilmente cairá nesse descrédito. É um projecto que acaba por ser quadrado, ou seja, não há muita novidade. Estamos a falar de uma família que está sempre metida em sarilhos e a grande novidade que pode acontecer é a história em si, tem que ser uma boa história onde as pessoas se identifiquem, as brincadeiras com a actualidade e, eventualmente, os convidados que possamos ter, que é sempre uma mais valia.

Porque é que o meio das vossas actuações são os espaços nocturnos?
É um pouco como disse no início. O projecto "Sarilhos e Cadilhos" sempre teve a ideia de angariar novos públicos. O passaporte mais directo para essa angariação é a noite difundindo, assim, a diversão nocturna com a cultura, o que tem funcionado muito bem porque há pessoas que têm uma ideia absolutamente errada do que é o teatro. Sem dúvida alguma que os "Sarilhos e Cadilhos" não são a exclusividade do que é o teatro. Claro que não somos. Somos, sim, uma introdução do que as pessoas possam ver no teatro, ou, então, um outro tipo de espectáculo. Há muita gente que vem falar connosco no fim e que diz que é o primeiro espectáculo de teatro que vê. Isso a mim assusta-me. O facto de hoje em dia, em pleno Século XXI haver gente, em cidades com salas de espectáculo, dizerem-me que nunca viram uma peça de teatro. Portanto, sem dúvida alguma, o nosso meio de actuação foi o melhor para chegarmos a esse nicho de pessoas que queriamos atingir. Agora, se é o local que mais gostamos de trabalhar? Não. Nem sempre temos as melhores condições para podermos actuar, mas também só vamos a casas em que temos o mínimo de condições. Se tivermos um espaço que não tenha o mínimo de condições possíveis, nem sequer actuámos. O ideal era uma sala de espectáculo, que se calhar é o que vai acontecer a partir de 2008, com todas as condições. Mas, sem dúvidas que era necessário começar pelos bares e discotecas, onde as pessoas pensam que para ir a uma sala de espectáculos têm de se produzir todas e não é nada disso. É um grande mito do teatro. É verdade que algumas salas de espectáculo têm valores que não são muito acessíveis mas aí entrávamos num grande tema que é: desporto vs cultura. Quem tem dinheiro
para ir ver, por exemplo, um Futebol Clube do Porto vs Benfica que custa à volta de 50€ ou 60€, também tem 20€ para ir ver um espectáculo de teatro.

Tem algum tipo de superstição antes de cada actuação?
Eu sou um bocadinho supersticioso. Os meus colegas dizem que sou maluco porque, antes de entrar em palco, perfumo-me de cima a baixo (risos). Faço isto por duas razões: primeiro porque dizem que é bom para espantar os espíritos, a segunda é porque é um perfume que eu identifico com o David, que é o meu personagem, que é para me sentir ainda mais dentro da personagem em questão. Depois também há aquelas superstições de haver palavras que não se podem dizer.

 

Quais os planos futuros dos "Sarilhos e Cadilhos"?
Em 2008 estamos com a ideia de nos instalar-mos no Porto durante uma temporada. Quando falamos numa temporada falamos em treze episódios, portanto, treze semanas. Para além desse, estamos também com o objectivo de lançarmos o projecto para um canal televisivo. Se isso vai ser possível ou não, não faço a minima ideia porque o ramo televisivo é muito complicado. Nós temos dois canais de televisão que estão seriamente interessados no projecto, agora, se vai dar alguma coisa, não sei. Não gosto muito de falar nisso porque já não é a primeira tentativa que temos para entrar no mercado televisivo e às vezes fica tudo em "stand by". Básicamente, os planos são continuar com os espectáculos.

Como avalia o estado da comédia em Portugal?
A comédia em Portugal está como o país, complicado (risos). Mas acho que já esteve pior. Confesso que sou um bocado esquisito e em Portugal há muitas poucas pessoas que me fazem rir. Quase ninguém me faz rir. Há uma actriz fantástica, que eu adoro, e é com grande pena minha que ela não esteja no mercado de trabalho que é a Marina Mota. Confesso que não é das pessoas que me faz rir muito, mas, simplesmente, faz-me rir, secalhar porque faz um tipo de trabalho que eu gosto. Há outra actriz que também é muito boa a fazer comédia e que, neste momento, também não está a fazer comédia que é a Maria Henrique. No geral, tudo o que me faz rir é fora de Portugal. Há muito trabalho brasileiro que gosto. Nós, os artistas, temos que trabalhar consoante o mercado que temos e o mercado que temos não exige qualidade. Exige alguma qualidade, o português, também, não come tudo, mas não é preciso ser-se muito genial para ter um projecto que tenha sucesso. Lamento, mas é a verdade. Para o português quanto mais asneiradas houver e quanto mais "broeiro" e grosseiro for, melhor. Secalhar por causa dos dias cinzentos que a nossa sociedade vive, suponho eu. O "Levanta-te e Ri" foi um dos exemplos. Como é que havia gente que podia achar piada a meia duzia de anedotas com asneiradas pelo meio. As pessoas em Portugal, também, vivem muito da aparência. Isto é, toda a gente gosta mas ninguém admite. Toda a gente sabe mas ninguém vê e o que é certo é que as coisas têm audiência e têm público. É um fenómeno que ainda estou a tentar perceber como é que, por exemplo, ninguém gosta de Fernando Rocha nem ninguém vê Fernando Rocha mas ele tem tanto sucesso. Como também não percebo como é que toda a gente reclama a presença do Filipe La Féria no Porto, que é dos poucos homens que enche uma sala de espectáculo sem 50% da bilheteira ser oferecida. Toda a gente reclama mas é o único que consegue esse feito. O que é certo é que até hoje o Rivoli teve a cargo de entidades, supostamente, públicas, que, supostamente, prestavam o serviço público mas que só se limitavam a fazer espectáculos para a elite. Portanto, com toda a polémica que se passou por causa do Rivoli, o que é certo
é que concordo com a opção do Rui Rio, que foi oferecer aquilo a quem realmente faz alguma coisa pelo espectáculo.

 

 

  

 

Álvaro Gonçalves


 

 

 

publicado por Álvaro Gonçalves às 19:40
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