Sábado, 27 de Outubro de 2007

"Foi marcante ser seleccionador nacional"

Agostinho Oliveira é uma cara conhecida de todos os seguidores do desporto e, em particular, do futebol. Está há quase vinte anos ligado à Federação Portuguesa de Futebol e, apesar dos anos passarem, continua empenhado no projecto que ajudou a criar e a prestar um bom serviço a Portugal.

 

 

 

O Agostinho Oliveira após o Euro 2006, onde Portugal desfraudou as expectativas, assumiu outras funções na Federação. O que o fez voltar a treinar?

Nada me fez voltar. Eu estou ligado ao processo de formação deste país há 20 anos e, como tal, o desfraudar de expectativas dos sub-21 não deixou de ser um processo normalíssimo. Nós não estamos aqui para ganhar tudo, estamos sim para surtir algum efeito daquilo que eu entendo como formação, sendo a formação, para mim, um processo de equilíbrios e valorizações internas em relação ao que perspectivamos no futuro. Eu cometo erros, outras vezes são os jogadores e ainda há as outras equipas que, por vezes, são melhores que nós. É o eterno problema do futebol onde há vitórias, derrotas e, por vezes, empates, que ditam os sucessos e insucessos. Mas eu não fui só treinador dos sub-21 um ano. Estive variadíssimos anos, apurei a equipa para as fases finais dos campeonatos da Europa e esse é o nosso objectivo fundamental. Depois, no Campeonato da Europa, de cinquenta e três selecções a nível europeu, estão só oito que se dividem em dois grupos. Portanto, as oitos que estão são equipas muito fortes tradicionalmente. Ou seja, não foi pelo mau resultado da selecção que se deu a minha saída de treinador, mas sim por relações profissionais com quem estava à frente das selecções. No entanto, voltei ao cargo de supervisor de toda a formação, que já tinha ocupado antes de ser seleccionador dos sub 21 e da selecção A quando fiz a ponte entre o António Oliveira e o Scolari. O cargo de supervisor exigiu de mim uma dedicação muito grande pois fiz um diagnóstico profundo acerca do futebol de formação, de forma a descobrir factores que não estivessem a correr de acordo com o que estava programado e que tinham de ser solucionados. Passado um tempo, voltaram a convidar-me para assumir as selecções juniores e a de supervisor em simultâneo. Portanto, neste momento, todas as selecções são minhas, desde os sub-19 aos sub-15, com treinadores em cada uma porque não posso estar ao mesmo tempo em várias selecções.

Como é feita a selecção dos atletas para integrarem a equipa?

Há dois momentos. O primeiro é todo o trabalho que os clubes fazem ao trabalhar os jogadores, pois lá eles trabalham todos os dias, enquanto que na selecção é só de vez em quando. O facto de as selecções terem menos trabalho com os jogadores, aumenta a responsabilidade do clube no aspecto da formação. A nossa principal função é fazer uma análise rigorosa aos atletas que convocamos, de forma a termos os melhores no nosso grupo. O segundo momento é perto da idade dos quinze anos, onde fazemos as selecções regionais em que cada região escolhe os melhores e vão a Lisboa durante oito dias. Aí realiza-se um torneio entre as regiões onde nós observamos os jogadores em parceria com os coordenadores regionais, e fazemos a primeira selecção de sub-15. Essa selecção tem continuidade, o que não quer dizer que não seja um espaço aberto, e dois anos mais tarde volta-se a fazer o mesmo processo mas em sub-17, para avaliar possíveis entradas no grupo que já está formado há dois anos. Para além disso também vamos observando os jogadores domingo a domingo, de forma a fazerem parte do grupo os melhores.

É nestas selecções que aparecem jovens promessas, mas com o tempo desaparecem. Porque é que esse fenómeno acontece?

Esse é um fenómeno inevitável. No entanto isso não tem acontecido com os últimos que têm sido lançados. Eu lembro-me que todos os jogadores que estavam comigo nos sub-21 e em quem arrisquei, inclusive alguns em que apostei com menos dois anos que a idade normal, caso de Nani e João Moutinho, porque sentia que havia neles um potencial maior. Sofri por causa disso, mas arrisquei a favor do futebol nacional e da sua projecção. Aliás da selecção A que se apresentou pela última vez, só o Ricardo e o Deco é que não foram lançados por mim. Mas o Deco foi uma solução que partiu de mim, quando estive na primeira equipa enquanto não chegou Scolari, porque sentia que estávamos fragilizados naquela posição, pois o Rui Costa já não se mostrava ao nível de outros tempos, apesar de continuar a ser um bom jogador. Todos os outros foram campeões da europa comigo nas selecções jovens, ou fizeram o procedimento do qual já falamos. Portanto, não se perderam. Reconheço que há excepções, mas agora são raras, como o caso do Dani que preferiu ir para a moda. Nem toda a gente consegue chegar ao estrelato, não por ser difícil, mas sim pela sua personalidade. Só uma personalidade forte, capaz de resistir aos estímulos exteriores, como o dinheiro, é que consegue chegar ao estrelato, caso contrário é impossível porque para termos o jogador precisamos de ter, acima de tudo, o homem.

Acredita que poderão sair desta equipa jogadores de grande qualidade?

Acredito piamente. Há sinais dos tempos, ou seja, os núcleos estão cada vez mais reduzidos, a apetência para o futebol começa a ter outros contrabalanços que são os computadores, o basquetebol, o futsal, o andebol, que são modalidades menos conflitosas a nível de, por exemplo, de temperatura, relvados, pelados, entre outros. O jogador de futebol tem outro nível de saber sofrer comparativamente com os jogos de pavilhão. Sinto que necessitámos de criar estilos que façam cada vez mais jovens praticarem futebol, pois quanto maior for o número de praticantes, mais probabilidade temos de formar jogadores de qualidade. Em relação aos jogadores desta selecção temos o Adrien(Silva) na equipa senior do Sporting, o Romeu(Ribeiro) e o Miguel Vítor no Benfica, o Rabiola no Guimarães, o Stélvio no Braga, o (Carlos) Pita no Nacional da Madeira, o que mostra que podem, a breve prazo, começar a mostrar créditos e que são um bom produtos da formação.

O facto de alguns dos jogadores já actuarem em clubes da primeira liga, ajuda na sua tarefa?

Por vezes não. Há uma realidade que é a importância de eles estarem na primeira liga, mas há outra realidade que é a que não jogam. E entre competirem nos juniores e estarem no plantel senior e não competirem, prefiro que eles compitam nos juniores. Parece um paradoxo, mas é mais importante a competição do que o treino, apesar de serem complementares. Para a selecção é preferível os juniores jogarem Domingo a Domingo do que simplesmente treinarem ou jogarem dez minutos na primeira categoria.

Na sua opinião, como é que estes jovens devem ser integrados no futebol profissional?

Por soluções intermédias que por razões de ordem económica do país e dos clubes não foram bem aproveitadas, que é o caso das equipas B. Para além da ordem económica, a filosofia de entendimento da necessidade das equipas B não foi bem entendida. Havia outra solução que era a realização de um campeonato de esperanças a nível de clubes, por exemplo. Poderia haver um campeonato de reservas local e depois transformar-se num campeonato nacional. Esse seria, talvez, o melhor percurso porque aumentaria a competitividade e aproximava muito mais do futebol senior. Estou a tentar fazer isso através de uma linha de ordem de ideias que passa por um fortalecimento da fase final do campeonato de juniores, um play-off muito forte onde possamos ter uma montra que evidencie uma série de bons jogadores. Para além da integração no futebol profissional, estas ideias serviam para contrariar uma tendência do futebol nacional. Actualmente temos mais jogadores estrangeiros do que portugueses na primeira liga. Neste momento 50,5%  de estrangeiros contra 49,5% de jogadores nacionais, o que é triste.

Posso concluir que concorda, então, com a criação de um campeonato de reservas, como tem sido anunciado por alguns clubes?

Eu concordo com qualquer situação que permitisse a este sector estário ter uma valorização constante. Ou seja, jogarem nos seus clubes, jogarem num campeonato com alguma competitividade e se estivermos a falar do campeonato de reservas estamos a falar de seniores, o que permitia a este escalão etário ganhar uma maior maturidade porque jogavam com jogadores com mais experiência, não se limitando a treinar com eles. Toda este conjugação de factores deria importantíssima para preparar mais rapidamente o futuro dos jogadores jovens. Este é o tal modelo intermédio, que falei antes, pois não joga nos seniores mas joga num campeonato mais competitivo que o dos juniores, jogando com profissionais mais experientes e tendo uma maior projecção.

Quais as principais dificuldades em realizar estágios enquanto os campeonatos decorrem?

Os campeonatos param e os calendários estão feitos antecipadamente. Os problemas são mais a nível de treino. Por exemplo, se um jogador jogou sabado, fazemos treino segunda e terça, se, porventura, jogou domingo, fazemos à terça e quarta, de forma a dar um dia de descanso. Mas o maior problema para nós é, de longe, não termos o tempo de trabalho que tínhamos anteriormente. Estamos a sofrer cortes de tempo de ano para ano o que vai dificultando o nosso trabalho. Assim, não conseguimos ter a equipa no seu ponto máximo.

Como avalia o estado da formação em Portugal?

Acho que houve uma valorização muito grande porque apareceram mais espaços físicos. Um dos nossos grandes dilemas era a realidade de não termos poucos bons espaços físicos em Portugal. Prácticamente tínhamos o Vitória de Guimarães, ultimamente o Sporting, o Benfica e o Futebol Clube do Porto. De resto não tínhamos mais nenhumas infraestruturas em que pudessemos trabalhar a formação. Ultimamente têm aparecido,em algumas áreas, novas opções a nível de espaços físicos que podemos aproveitar, casos do Braga e do Feirense, por exemplo.

Qual a sua opinião acerca do futebol português?

Em termos de desígnio, ainda acho que há exagero de equipas na primeira liga. Acho que o campeonato poderia ter outro formato, com menos equipas e mais competitivo pois o tamanho do nosso país não exige tantas equipas. Não quero dizer que com menos equipas seria mais competitivo, nesse sentido deveria mudar-se o formato da competição. Agora, sei que é mais fácil dizer do que praticar, mas a verdade é que sem a experiência real não se sabe as vantagens ou desvantagens que possivelmente poderia haver. No entanto, nota-se neste momento que as equipas mais modestas conseguem garantir um equilíbrio e um resultado incerto frente aos clubes mais fortes, o que é positivo. Só uma ou outra situação é que isso não é tão evidente como, neste momento, o caso do Futebol Clube do Porto em relação às outras equipas. Mas o equilíbrio entre as equipas é muito mais notório. Sei e insisto na ideia de que não é fácil alterar isto, mas poderia haver uma fase final num play off forte. O domínio de outras áreas que foram colocadas(Taça da Liga), também pode ser benéfico porque vai fazer com que haja dois jogos por semana, tal como há quando há jogos da Champions e poderá fazer com que os jogadores da formação vão tendo a sua oportunidade.

Está tantos anos ligados à formação, mas não está nos seus planos treinar um clube?

A verdade é que fui seduzido durante muitos anos por equipas de renome a nível nacional e não só e outras que poderiam não ser de tão bom nível mas a vantagem económica era forte, principalmente do médio oriente. Só o ano passado tive sete convites para treinar clubes mas, sinceramente, seduziu-me sempre este projecto. Era capaz de económicamente ter mais vantagens mas este projecto seduziu-me desde quase há vinte anos e estou muito mais envolvido num projecto da federação do que no projecto dum clube. Acho mais difícil trabalhar na federação porque temos uma vantagem, seleccionar jogadores, mas temos a desvantagem de saber ou não seleccioná-los. Para além disso temos a desvantagem que é não trabalhar em continuidade com os jogadores. Acredito que quem obedece ao princípio de que quando há um maior tempo de trabalho com um jogador o resultado será mais positivo mas penso, também, que acabarei por entrar nessas situações mais ano menos ano.Passei por todas as selecções da federação, desde os sub-16 à selecção A, conquistei alguns títulos, mas sei que vou acabar por ir para um clube debitar a sabedoria que fui adquirindo ao longo dos tempos.

Quais os momentos que destaca da sua carreira de treinador?

A minha carreira de treinador está ligada à Federação Portuguesa de Futebol e portanto destaco os títulos europeus nas camadas jovens. Nos sub-17 houve muitos treinadores campeões, incluindo eu, mas nos sub-19 fui o único a conquistar o campeonato da Europa. Mas, marcante foi ser seleccionador da equipa principal por motivos óbvios e por motivos de orgulho pessoal visto que estou há muitos anos ligado às selecções e foi quando cheguei à selecção A que, posso dizer, atingi o climax da minha envolvente na federação.

 

Para ver outra parte da entrevista vá à secção "Actualidades", da edição 19, de: www.novofangueiro.com

 

Álvaro Gonçalves

publicado por Álvaro Gonçalves às 09:52
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2 comentários:
De Joao Nunes a 21 de Julho de 2008 às 22:15
Boa noite!
Gostaria de saber a quem foi dada esta entrevista?Fonte?
Estou a relaizar um trabalho e necessito da referencia bibliografica.
Obrigado Joao Nunes
De Álvaro Gonçalves a 24 de Julho de 2008 às 21:49
Olá boa noite.

Peço desculpa por só agora lhe responder mas não tenho tido hipóteses de actualizar no blogue.

A entrevista do Agostinho Oliveira foi feita pessoalmente por mim durante um estágio da selecção de sub-19. Não foi retirada de nenhum lado.

Caso precise de alguma ajuda para a sua pesquisa no que puder ajudar estou disponível.

Cumprimentos

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