Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Entrevista com Paulo Pereira

Paulo Pereira é moçambicano e um apaixonado pelo hóquei em patins. Apenas aos 29 anos foi "descoberto" mas ainda pôde ajudar a selecção de Moçambique na participação de algumas fases finais de mundiais.
Residente em Portugal, decidiu fazer uma angariação de equipamentos "inúteis" para poder enviar para Moçambique de forma a ajudar no desenvolvimento da modalidade no país africano.
A entrevista refere-se à actual situação do hóquei moçambicano, o porquê de estar na situação em que está e o que se pode mudar para melhorar o desenvolvimento de uma modalidade que tem história em Moçambique.

Paulo Pereira à esquerda
Qual o seu papel na luta por melhorias no hóquei moçambicano?
No meu caso, ao contrário de outros atletas que têm ajudado ao longo de muitos mais anos a Selecção de Moçambique, eu apenas fui descoberto aos 29 anos e até hoje ajudei em 2 mundiais A e um B em que fomos campeões. Como atleta não sei se terei condições de participar ao mais alto nivel noutro Mundial.
Neste momento a minha luta pelo futuro do hóquei em Moçambique prende-se mais com o facto de tentar mostrar a quem dirige que o futuro passa por conseguir meter o máximo de miudos a patinar e que para isso é necessário material que por lá não existe.
Daí, iniciei uma campanha para angariar material em segunda mão pela altura do Natal de 2007 para tentar ajudar a criar mais 2 ou 3 centros de patinagem.
Para terem ideia, neste momento Moçambique tem 4 equipas séniores e apenas uma que realmente tem formação e o meu desejo é que pelo menos essas 4 equipas tenham uma escola de patinagem.
Como define o hóquei em Moçambique?
Para mim o hóquei em Moçambique é um desporto amador, de alguns amigos que gostam realmente da modalidade e/ou têm familiares que jogaram hóquei na altura das grandes glórias. 
Existe falta de organização interna e uma grande inércia em mudar, não existe uma metodologia de treino nem uma época determinada para efectuar os campeonatos.
As preocupações em organizar, treinar e jogar  apenas aparecem 1 mês antes de cada campeonato do mundo. Ultimamente tenho visto alguma melhoria mas mudar leva o seu tempo e ainda é necessário vencer a inércia e as mentalidades que afirmam que as coisas sempre foram assim e resultaram.
Porque é que o hóquei decaiu tanto em Moçambique?
Na minha opinião, a falta de material é o maior problema que de certa forma está associado à falta de organização. A degradação dos recintos desportivos devido à falta de manutenção tambem prejudicam em muito,porque leva a que exista uma grande dificuldade em encontrar locais para praticar a modalidade e aliado a estes factos tambem os clubes onde a modalidade se pratica se encontram descapitalizados na sua maioria, ou com patrocinios insuficientes para abarcar toda a gestão do património e fazer face às crescentes necessidades em todas as modalidades.
Para além disso, o país tambem sofreu de uma guerra civil que prejudicou o desenvolvimento a todos os niveis, o futuro, espero eu, será certamente de muitas conquistas a todos os níveis. Pessoalmente tenho notado grandes desenvolvimentos, pelo menos em Maputo que é a unica cidade que conheço em Moçambique.
A verdade é que o campeonato de Moçambique praticamente se resume a quatro equipas de Maputo. Porque é que isto acontece?
As 4 ou 5 equipas que existem em Moçambique estão todas situadas na capital, isto deve-se aos factos mencionados anteriormente
Que medidas se podem tomar para alargar a competitividade do campeonato?
Para melhorar a competitividade têm-se efectuado vários torneios e campeonatos em que participam equipas de Moçambique e África do Sul. Isto é necessário enquanto não se criarem meios para aparecerem novas equipas e manter as que já existem mas com maior incidência na formação.
Para uma melhor percepção dos leitores, quais as diferenças entre o hóquei português e o hóquei moçambicano?
As diferenças prendem-se com a forma como é praticado, aqui (Portugal) temos uma federação que organiza todas as competições em que as equipas se inscrevem, treinam durante a semana para jogar ao fim de semana, existem subidas e descidas de divisão.
Com 5 clubes sem formação de miudos, as equipas são compostas sempre pelos mesmos jogadores que não têm uma prática assídua de treinos e jogos, por vezes são os próprios jogadores que marcam treinos e jogos entre eles, dependendo da disponíbilidade de todos e nem sempre é fácil.
Visto que é muito difícil a missão de voltar a colocar o hóquei em patins na ribalta, acha que deveriam haver mais competições entre países, com Moçambique envolvido, como acontece entre Moçambique e a África do Sul com o Inter Clubes?
Durante muitos anos o Egipto foi o país detentor das rédeas do hóquei em patins em África e o resultado foi nulo pois nada se fez para o desenvolvimento do hóquei.
Neste momento a Angola é o país que tem esse cargo, assim esperemos que eles, que têm condições financeiras muito acima da média africana, consigam anualmente organizar uma Taça das Nações Africanas em que participem equipas ou selecções dos 4 paises africanos que ainda têm a modalidade.
Moçambique vai organizar o Mundial 2011. O país está preparado para receber uma grande competição?
Esperemos sinceramante que o país o consiga fazer. Condições desportivas a nível de um pavilhão existe, ou existirá um com excelentes condições para a prática da modalidade, a nível desportivo acredito que está a melhorar, espero apenas que os atletas que estão disponíveis para o próximo Mundial A consigam a manutenção no grupo A.
As unidades hoteleiras, o clima, a amabilidade e simpatia da população são do melhor que tenho visto.
Em termos de adesão do publico posso dizer que o hóquei em Maputo é muito acarinhado e que de certeza que teremos pavilhão lotado em todos os jogos.
Que consequências o evento terá na modalidade?
Despertará com certeza um maior interesse pela modalidade a nível nacional, possibilitará interesse de empresas em ajudar a modalidade e certamente o governo tentará apoiar também a modalidade.
A nível turístico certamente muitas pessoas, como eu, ficarão apaixonadas pelo país que me viu nascer e que apenas conheci com 29 anos pois saí de lá com apenas 6 meses. 
Segundo algumas pessoas, a Federação Moçambicana apenas se preocupa com as grandes competições e não dá a mesma importância ao campeonato. Porque é que existe esta mentalidade quando se sabe que é nos campeonatos nacionais que despontam possíveis valores que possam representar a selecção nas grandes fases finais?
Esta mentalidade existe porque os dirigentes federativos são pessoas que não praticaram a modalidade e a mentalidade tem sido sempre de que as coisas se resolvem com mais ou menos dificuldades. Falta, entre muitas outras coisas, uma cultura desportiva.
Devido à história em comum entre os dois países, Portugal pode ajudar Moçambique nesta missão?
Eu gostaria de pensar que sim, no Mundial de Oliveira de Azeméis com o Prof. Senica como treinador, foi a primeira vez que se efectuou um estágio de preparação de 1 mês em Portugal e espero que se tenha aprendido muita coisa mas nos Mundiais seguintes não se conseguiu fazer o mesmo, tentou-se mas o eterno problema financeiro e disponibilização de verbas por parte do governo dificultou sempre as tarefas.
Como a mentalidade dos dirigentes também é o de ficar à espera que as coisas se resolvam, em vez de trabalharem o ano inteiro para criar meios, arranjando patrocínios para a modalidade, a preparação para os Mundiais e os Campeonatos internos são sempre organizados e realizados em cima do joelho num café de esquina qualquer.
Poderá voltar a aparecer em Moçambique jogadores como Fernando Adrião, Francisco Velasco ou Amadeu Bouços?
Neste momento existem alguns jogadores com grande potencial e que certamente têm lugar em qualquer equipa de topo de 2ª divisão em Portugal e com um trabalho coerente e programado convenientemente, que é algo que nunca tiveram certamente, chegariam a equipas de 1ª divisão em Portugal. Dizer se seriam um dos melhores do mundo é difícil de dizer.
Para mim é dificil de identificar quem foi o melhor jogador de hóquei de todos os tempos, é fácil identificar alguns nomes que foram e são acima de todos os outros mas certamente cada um na sua época.
Álvaro Gonçalves
 
publicado por Álvaro Gonçalves às 21:28
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3 comentários:
De Anónimo a 30 de Abril de 2008 às 09:34
Parabéns por esta excelente entrevista e votos para que os sonhos de Paulo Preira se realizem.
Abraço do:
http://patinslover.blogspot.com
Pedro Antunes
De Ze Carlos a 5 de Maio de 2008 às 13:22
Grande jogador, excelente atleta, amante incondiconal, amigo do Hoquei, potencial treinador e dirigente do Hoquei Mocambicano!
pena nao haver + Paulos Pereiras, pois de certo k seria + facil ultrapassar as actuais dificuldades!
Abracao
Ze Carlos
De David Chalupa a 11 de Maio de 2008 às 03:03
Grande amigo Paulo, só mesmo tu com a tua força e vontade de mover montanhas. Não pares, sabes que tudo o que fazes se resume aquilo que tens dentro de ti, um grande coração! Abraço para ti e para Moçambique!

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