Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

"Perder jogos é o começo de uma vitória"

José Carlos Amaral (esquerda) com o Relações Públicas do H.C.Fão

 
"O José Carlos Amaral, é um treinador de hóquei em patins com uma grande experiencia. Durante 7 anos tive o prazer de ser um dos seu adversários nos europeus de juniores ou juvenis e ver o excelente trabalho que tem vindo a fazer com as diversas selecções inglesas. A experiência que levou de Portugal permitiu-lhe elevar bastante o nível das suas seleções e ser, hoje, uma pessoa que tem a confiança total da Federação Inglesa.
Uma federação que tem consciência das limitações dos seus clubes e das dificuldades que ainda há em Inglaterra para fazer mais e melhor.
Porque como eu costumo dizer: "Só podemos fazer uma excelente omelete com excelentes ovos!" e penso que o José Carlos tem feito omeletes bem boas com os ovos que tem (risos).
Penso que não se pode pedir muito mais do que o José Carlos Amaral tem vindo a fazer pelo hóquei em Inglaterra. O hóquei em Inglaterra ou na Suiça, não tem nem de perto nem de longe as mesmas condições que o hóquei em Portugal.
O José Carlos merece todo o meu respeito.
 Pedro Antunes
 
José Carlos Amaral respondeu a algumas questões relacionadas com o projecto que está a desenvolver no hóquei inglês e qual é, especificamente, o trabalho que desempenha. Para além disso deixa visível as dificuldades com que a Inglaterra se depara em relação ao hóquei em patins.
 
Quais são as principais dificuldades para implementar o hóquei patins num país onde a modalidade não tem “força”?
Para começar, o hóquei em patins nasceu em Inglaterra há pouco mais de 100 anos. A Federação Inglesa fez 100 anos em 2004, se não estou em erro, portanto é um desporto antigo. O problema é que a Segunda Guerra Mundial destruiu parte do Reino Unido e, logicamente, o hóquei em patins foi uma modalidade que infelizmente foi sacrificada e que desapareceu. Depois, o recomeço do hóquei em patins em Inglaterra foi feito como ainda é hoje, de uma forma muito amadora. O grande problema do hóquei em Inglaterra não é os recursos humanos, é a parte logística, a parte de pavilhões. Os pavilhões desenhados em Inglaterra não são para hóquei em patins nem são municipais. Os pavilhões são privados e, logicamente, os privados só querem fazer dinheiro e ter lucro. Então, os pavilhões são desenhados para badminton, para terem quatro courts de badminton. O tamanho de um campo de badminton é de 36 de comprimento por 16 ou 18 de largura. A maior parte dos pavilhões em Inglaterra são pequenos, não têm tabelas, não têm espaço para os bancos de suplentes, portanto estamos muito limitados em questões de pavilhões. Por causa disto tem de se progredir o hóquei em patins e inglês e nesse sentido está-se a fazer um trabalho sério. Há 12 que estou a participar nesse trabalho, primeiro com os seniores durante os primeiros 10 anos e desde 2005, quando fui nomeado director técnico da Federação, com todos os escalões de hóquei em patins, onde treino sub-9, sub-11, sub-13, sub-15, sub-17 que são os juvenis que vão aos europeus, juniores, seniores e femininos. Portanto, eu estou em tudo. Treino as equipas todas por isso é que sou a primeira pessoa em Inglaterra a trabalhar a tempo inteiro para o hóquei em patins, coisa que era impensável há 5 anos atrás mas que agora não é, com um esforço enorme do Presidente da Federação Inglesa e pela minha paixão pelo hóquei em patins, em que abdiquei do meu curso de engenharia para me dedicar em exclusivo aos hóquei em patins. Praticamente tenho um contrato vitalício com a Federação para desenvolver o hóquei em patins em várias vertentes. Cursos de treinadores sou eu que os faço, praticamente todos os meses, e faço-os nos clubes. É a nível regional, vou aos clubes e eles dão-me os treinadores. É também meu trabalho ir dar treinos aos clubes, para desenvolver a modalidade e ajudar os treinadores porque, de facto, um dos maiores problemas do hóquei em Inglaterra são os treinadores. Eu tenho que desenvolver os jogadores mas também os treinadores porque não há ninguém a treinador. Há dois treinadores que são meus adjuntos, um há 5 anos e outro há 2, que são os únicos que sabem treinar, aliás as duas equipas desses treinadores estão nas finais da Taça de Inglaterra. São os únicos que têm algum método de trabalho e que aprenderam comigo porque trabalham quase todas as semanas.
De que forma a Federação Inglesa tenta incentivar a prática do hóquei em patins?
A única forma que eles encontram para incentivar é a porem-me a mim a tempo inteiro. Neste momento em Inglaterra temos menos de 1000 jogadores e num país de 50 ou 60 milhões de pessoas, 1000 jogadores não é visível. Não há visibilidade nenhuma e o Governo inglês não dá dinheiro nenhum para o hóquei em patins. O que a Federação Inglesa entendeu por bem foi pôr-me a mim a tempo inteiro. E o meu trabalho é pegar no meu carro, viajar pelo país todo. Vou às escolas, aos municípios, faço sessões de hóquei em patins abertas onde as pessoas vão, paga ao pavilhão e o pavilhão paga-me a mim. Nos próximos 3 anos o meu objectivo é recrutar jogadores para o hóquei em patins, passar dos 800 para os 2000 se for possível. Assim, começamos a ter mais visibilidade em Inglaterra e, possivelmente, começa a aparecer dinheiro porque o dinheiro que a Federação tem é aquele que os jogadores e clubes pagam em inscrições. O meu dinheiro, evidentemente, vem de forma diferente, vem da mão dos pais dos jogadores. Há um sorteio mensal que se faz em que os pais pagam uma quota e parte do meu ordenado vem daí, a outra parte vem do trabalho que faço nos clubes e nas academias porque tudo o que está relacionado com a Federação Inglesa sou eu que organizo e os lucros são todos meus. É o acordo que tenho com a Federação senão não podia abdicar da minha vida profissional só pelo amor que tenho pelo hóquei em patins.
O facto de ser de um país com forte tradição no hóquei ajuda no desenvolvimento destes países como a Inglaterra em que a modalidade não visível?
Sim sem dúvida. Eu em Portugal treinei a Juventude de Viana, o Futebol Clube do Porto, a selecção portuguesa de juniores e logicamente que toda a experiência que adquiri em Portugal mais o meu esforço ajudam no desenvolvimento da modalidade. Falo no meu esforço porque nos inícios era amador porque nos primeiros 10 anos não era pago, quer dizer, era pago mas as despesas eram maiores que os ganhos e tentei pôr os meus conhecimentos em prática. Escrevi um projecto que está em andamento, que começou em 2005, onde eu tenho que desenvolver o hóquei em patins começando pelas camadas jovens. Eu comecei a construir a casa pelo telhado, comecei pelos seniores onde os pus no Grupo A, há 7 anos que estamos lá, mas foi um trabalho que começou sem bases. O presidente da Federação entendeu, e muito bem, que era melhor eu começar a treinar as bases. Hoje em dia podemos dizer que temos jogadores ingleses como uma qualidade técnica acima da média. O projecto é tão sério em Inglaterra que a Federação Inglesa tem um fim de semana por mês que é um treino das selecções para mim, ninguém pode jogar nesse fim de semana. Durante o Sábado e o Domingo das 9 da manhã às 18 horas estou no ringue a treinar jogadores em sessões de 3 horas. Ao Sábado treino de manhã os sub-9, sub-11, e sub-13, as horas a seguir são para os sub-15 e as outras três horas são para os sub-17. Ao Domingo, das 9 ao meio dia tenho um treino a que chamo “treino de desenvolvimento” que são de jogadores que não vão jogar na selecção, porque sei que não têm qualidade para jogar lá, mas que querem aprender para chegarem ao clube e tornarem-se melhores jogadores. Depois tenho três horas para o hóquei feminino e tenho outras três para os juniores. Os seniores têm um plano especial porque fazem um trabalho semi-profissional, trabalham em tempos diferentes. No último fim de semana dedicado a todos os escalões bati records, num país de 800 hoquistas apareceram-me 125 atletas de 16 clubes diferentes e em Inglaterra só há 25 clubes. Portanto, o projecto está a ter impacto porque os clubes já mandam os miúdos para aprenderem um pouco mais. O trabalho em Inglaterra passa todo pelas minhas mãos, infelizmente. Infelizmente porque é muito trabalho mas felizmente que eu consigo estar a tempo inteiro e vou conseguir dar uma mão a todos os clubes que me querem e acredito que o futuro da Inglaterra vai ser grande. Até digo mais, a equipa de Iniciados em que estou a apostar está a treinar comigo para o Europeu e a competição vai ser em Inglaterra e isso já quer dizer alguma coisa. A Federação vai fazer um esforço para organizar o Europeu de Juvenis porque sabe que tenho uma fé enorme nesta equipa. Queremos lutar de igual para igual com todas as equipas menos Portugal e Espanha. Com essas duas não, mas com a França, Itália e Suíça queremos lutar de igual para igual.
 
Acredita que o facto de pensar a longo prazo só beneficia a selecção inglesa?
Sem dúvida nenhuma. Eu sou muito amigo do presidente da Federação Portuguesa de Patinagem mas porque é que a Espanha tem dominado o hóquei em patins? Porque lhes foi dado treinadores ou um director técnico para trabalhar um sistema e introduzi-lo com o tempo. Hoje, qualquer equipa em Espanha joga sempre com o mesmo estilo e ganham os campeonatos todos. Em Portugal trabalha-se muito com os resultados no imediato. Em Inglaterra não porque felizmente para esta situação, não há muitos treinadores portanto a Inglaterra tem todo o tempo do mundo para reorganizar. Eu tenho até ao resto da minha vida para trabalhar o hóquei inglês sem me preocupar em perder o emprego. Agora, o que eu quero fazer é desenvolver de tal forma para que partir de 2010 tenha a equipa de juvenis sempre competitivos. Vi ser complicado porque enquanto que em Portugal se treina três ou quatro vezes por semana, em Inglaterra os jogadores treinam uma vez por semana nos clubes e uma vez por mês comigo, em pavilhões reduzidos.
Pode-se afirmar que Portugal é uma muleta no seu trabalho visto que vem cá muitas vezes com as selecções inglesas?
A razão por que venho a Portugal é porque sou português e conheço muita gente. Mas também tenho conhecimentos na Federação Espanhola e no Barcelona e não me importo de ir a Espanha, aliás vou a Espanha às vezes também. Dentro do meu plano, principalmente pelo que disse inicialmente em relação ao facto de não termos pavilhões, em todos os escalões eu faço duas viagens por ano. Isto já faz parte do regulamento da Federação, não posso trazer o mesmo jogador mais que duas vezes ao ano. Se trago um miúdo mais que duas vezes é injusto porque há outros que gostavam de vir mas os pais não têm dinheiro e aí estaria a causar uma situação de desigualdade. Miúdos que tenham dinheiro vinham três ou quatro vezes e os que não tinham só vinham duas. Não concordo com isso porque aí uns estariam a desenvolver mais que os outros de uma forma desigual e isso não quero. Outra função do meu trabalho é o de arranjar protocolos com algumas câmaras que nos apoiam quando vimos cá. Tenho desde 2005 com Santa Maria da Feira onde o ano passado estivemos lá dez vezes. O protocolo consiste em a câmara dar-nos transporte do aeroporto para a localidade e vice-versa e põem-nos o pavilhão à disponibilidade. Agora tenho a grande possibilidade de assinar um protocolo com a Câmara de Esposende. Estou interessadíssimo em fazê-lo por dois motivos, primeiro eu sou de Barcelos e a zona de Fão e Esposende foi onde sempre passei férias e conheço muito bem a zona e em segundo lugar quero trazer os meus jogadores a áreas a que pertenço, o Minho, e há vários clubes aqui à volta o que só beneficia o nosso trabalho. Mas o mais importante é a grande colaboração que sinto da parte de municípios portugueses, da Federação Portuguesa de Patinagem e da Associação de Patinagem do Minho em ajudarem no meu trabalho com o hóquei em patins inglês. Logicamente que se a Inglaterra chegar ao patamar que pretendo dentro de 5 anos será fruto de um trabalhar não só meu mas de muita gente, incluindo municípios, federações, associações de Portugal e Espanha que sinceramente são os dois países que têm colaborado comigo. Tenho bons protocolos, muitos amigos mas, acima de tudo, tenho o reconhecimento do mundo do hóquei em patins no grande trabalho que estamos a desenvolver para a Inglaterra e do sacrifício que muitos jogadores e pais fazem para colaborarem nele. O hóquei inglês é todo controlado por mim e só com disciplina as coisas funcionam. Não hesito quando tenho que disciplinar a Federação Inglesa também porque se é assim que eu quero é assim que tem de ser. Eu uso o meu poder mas eles sabem que os meus conhecimentos servem para pôr o hóquei em patins noutro patamar.
Então, espírito de sacrifício, disciplina e conhecimento são as bases para o bom futuro da Inglaterra?
Sem dúvida. Em 2010 conto ter a equipa de juvenis competitiva com as outras equipas. A partir de 2012 é quando eu penso que o hóquei em patins inglês poderá estar muito mais próximo da França, da Suíça e da Alemanha. Em 2010 será o começo de uma nova era no hóquei em patins inglês e a partir de 2012 penso já estarmos a competir bem com todas as equipas. Foram precisos dois anos para arrancar com este projecto profissional e serão precisos 5 anos para avaliar os resultados que vamos obtendo. É uma tarefa complicada mas eu gosto de coisas difíceis. Eu acredito que sou um vencedor e uma pessoa começa por ser vencedora quando se sabe perder. Sei que saí daqui sem ganhar jogos (V Torneio Internacional em Hóquei em Patins) mas sei que sai daqui com muitas coisas aprendidas. Alguns jogadores aprenderam e viram a diferença de hóquei entre eles e alguns jogadores. Agora vão embora para Inglaterra, vão ganhar mais amor a isto e vão querer treinar mais e isso para mim é a primeira vitória, é saber que os jogadores vão querer jogar e ganhar mais. Para mim, perder jogos é o começo de uma vitória. Com fé, vontade e acreditar chega-se sempre a qualquer lado.
 

http://mundook.net

Álvaro Gonçalves

publicado por Álvaro Gonçalves às 23:55
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1 comentário:
De Pedro a 30 de Setembro de 2011 às 11:25
Ola na verdade Jose carlos amaral é meu pai de sangue que nao vejo a muito tempo, meu nome é Pedro moro no brasil e queria saber como vocês entraram em contato com ele, pois não acho nenhum telefone ou e-mail dele.
Tambem sou de descendencia portuguesa, mais minha mae me levou dele quando era pequeno.

Se puderem entrar em contato e-mail: lmgrandchase@gmail.com

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